Greve do Sexo na Terra Bandeirante

Sex Strike in Bandeirante Land (São Paulo, Brazil).

Por Agostinho Toffoli Tavolaro – advogado, professor. Titular da Cadeira  39 do IHGG Campinas.

Corria o ano de 1708. Os bandeirantes, deixando suas famílias, suas moradas, aventuravam-se pelos sertões embrenhando-se nas matas e arrostando perigos de refregas com índios, cercados do perigo dos animais ferozes, da terrível onça pintada ou da peçonha das cobras que pululavam nas florestas e nos campos.

Deixado de lado o bandeirismo apresador de índios, assumira grandes proporções o bandeirismo prospector[1] gerando o povoamento de terras distantes, onde o ouro e as pedras preciosas abundavam, despertando a cobiça de outros que, se valendo dos feitos dos paulistas, vinham com eles disputar posse das reservas auríferas, muita vez invocando os direitos da Coroa portuguesa, sempre ávida em prover seus cofres.

Lendas corriam dos achados do minério, contando Pedro Taques que Antonio de Lara, ao sofrer seu cavalo um tropicão, viu que a causa do tropeço do animal fora ter ele ferido seu casco em aguda folheta de ouro, de onde vieram a extrair nada menos que onze arrobas de ouro[2].

Nas Gerais, as bandeiras paulistas penetraram a fundo, estabelecendo de início, como relata Odilon Nogueira de Mattos[3] três pontos principais de atividade mineradora: no Rio das Mortes, tendo por centro São João Del-Rei; na região de Ouro Preto e Mariana e na área do Rio das Velhas, assinalada por Sabará e pela sua vizinha Caeté, garantida sua posse pelos paulistas por ato real de 18 de março de 1694, deles exigindo sua Majestade somente o quinto devido à Real Fazenda. A riqueza das lavras atraiu enorme número de aventureiros e pessoas de outras plagas, principalmente do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, que ligados aos portugueses, procuravam obter da Coroa portuguesa datas de terras das minas, o que levou os paulistas a solicitar que não fossem feitas essas doações, pois foram os descobridores e conquistadores das ditas minas, a custa de suas vidas e gastos de sua fazenda sem dispêndio da fazenda real. Buscavam, com isto, a reafirmação do “direito de conquista”, noção jurídica tradicional do Antigo Regime português, que assegurava aos descobridores um tratamento privilegiado por parte da Coroa[4].

A esses adventícios chamavam os paulistas “emboabas”[5] animadversão que se patenteou em vários incidentes, que de outro modo seria de pequena monta, mas levados a extremos qual o fato de maltratar um português sua mulher paulista, que por isso teria sido morto por um paulista (em 1706), outro em 1707 quando foi acusado um português de haver roubado uma espingarda, acusação esta partida de um paulista, havendo tomado as dores do reino Manuel Nunes Viana, expoente dos emboabas, e, por derradeiro e mais grave o assassinato de um forasteiro por um mameluco bastardo do paulista José Pardo, homem rico e respeitado, que havendo dado abrigo a ele foi assassinado às portas de sua casa pelos emboabas, gerando-se a partir daí boato de que haveria vingança a ser executada pelos paulistas, o que gerou o desarmamento dos paulistas pelos portugueses e seus seguidores.

Documentada a animosidade pelo então Superintendente das Minas Gerais, Borba Gato põe escrito ao Governador D. Fernandes Martins Mascarenhas Lencastre datado de 29/11/1708[6], escaramuças houve em Sabará e Cachoeira do Campo, obrigados os paulistas a uma retirada para o Rio das Mortes, onde, após uma vitória contra os emboabas e lhes sendo noticiada a chegada de forças contrárias capitaneadas por Bento do Amaral Coutinho, dispersaram-se em grupos pelos capões de mato. Em um deles, depois denominado” Capão da Traição” foram exterminados em massacre feroz, após lhes haver Amaral Coutinho lhes garantido a vida mediante sua rendição, em episódio que, com palavras candentes, Alfredo Ellis (Junior), verbera a covardia dos chefes emboabas[7]. Cercado embora o episódio de dúvidas quanto à sua data e do número de paulistas massacrados em carnificina impiedosa e quanto à composição das baixas (paulistas e índios), com acentua Hernâni Donato[8], dúvidas não existem, no entanto, quanto à veracidade de sua ocorrência.

Chegada a notícia do desastre a São Paulo, trazida pela palavra de Luis Pedroso[9], reunido o povo em praça pública, pasmaram-se os presentes com o relato da crueldade e expressões de asco e de revolta assomaram ao semblante de todos. Eis que do grupo de mulheres, senhoras idosas umas, outras maduras e belas e jovens moçoilas viçosas destaca-se a esposa de Francisco Bueno, que em voz tonitruante conclama todas as mulheres, nas palavras de Julio Ribeiro:

Paulistas … todos vós conheceis-me bem; sou a esposa de Francisco Bueno. Venho falar-vos em nome de minhas patrícias … As mulheres paulistas amam muito seus pais, adoram seus maridos e idolatram os seus filhos: mas não podem querê-los desonrados. E eles o estão. Enquanto não estiver lavada a afronta que pesa sobre Piratininga, enquanto o sangue paulista bradar por vingança, vos negamos carícias de filhas, nossos afagos de esposas, nossas ternuras de mães. É um voto solene que fizemos: eu, para dar exemplo, recolho-me hoje à casa de minha avó: meu marido partirá sem que o estreite a meu seio, meu filho seguirá sem que eu o beije nos lábios. Ou vê-los-ei voltar vitoriosos do inimigo, ou nunca mais meus olhos se apascentarão em seus rostos amados; vencidos não os reconhecerei por pedaços de minha alma. É este o nosso pensar; é isto que temos pactuado. Vergonha eterna à mulher que quebrar este convênio. Vergonha à eterna à mulher paulista que quebrar este convênio repetiram em coro velhas, moças, donas e donzelas.

Tínhamos ali, a concretização daquilo que Aristófanes, há mais de 2000, idealizara, na Grécia, como obra antiguerra, pois Lisistrata conclamara as mulheres para que se opusessem à guerra do Peloponeso, negando seus favores a seus amados, para não os perderem às espadas e lanças dos inimigos.

Nas terras de Piratininga, no entanto, o contrário se fez. Negando-se a aceitar o opróbrio de uma derrota vexaminosa, buscou a mulher paulista apagar a ominosa derrota de seus conterrâneos, maridos, pais e noivos sido intimados a vingar pelas armas a sina de seus conterrâneos.

Aprestadas as forças paulistas, reunidos os esforços, vontade, entusiasmo e os meios necessários, marcharam para as terras das Gerais os bandeirantes, sob o comando de Amador Bueno da Veiga, havendo, no entanto, sido desnecessário terçar as armas, face à capitulação dos emboabas, sob o comando de Caldeira Brandt.

Maculada a honra de São Paulo pelo sangrento episódio do Capão da Traição, regressaram as forças paulistas, havendo-a restaurado, recebidos à sua volta pelas mesmas matronas, viúvas, esposas, donzelas, prometidas e noivas que lhes haviam feito sentir que não só aos homens, mas também a elas lhes causara vergonha a desumanidade e crueza dos eventos.

Notas e Referências

[1] ALENCAR, Expedito Ramalho de. História do Estado de São Paulo. Campinas: Komedi, 2009, 2ª ed., p. 76, distingue entre o bandeirismo apresador, dedicado à busca de indígenas para escravizá-los, que predominou no período no período da União Ibérica (1580 a 1640), o bandeirismo de contrato, que mediante ajustamento com os poderosos de então punha os bandeirantes ao serviço de senhores para combater as resistências dos índios e para destruição dos quilombos e o bandeirismo prospector, buscando ouro e pedras preciosas, que começara com a mineração do pico do Jaraguá, em São Paulo de Piratininga e levara os bandeirantes a desbravar e concretizar seus objetivos nas terras de Mato Grosso, Goiás e principalmente nas das Minas Gerais.
[2] MENEZES, Raimundo de. Histórias da História de São Paulo. São Paulo: Melhoramentos, 1954, p. 93.
[3] MATTOS, Odilon Nogueira de. A Guerra dos Emboabas. In: História Geral da Civilização Brasileira – I – A Época Colonial- 1 – Do descobrimento à expansão territorial. Direção de Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: DIFEL, 1960, p.297.
[4] ROMEIRO, Adriana. .  Acesso: 24/10/2011.
[5] MATTOS, Odilon Nogueira de. Op. Cit. p.299, nota (2), refere à discordância entre os autores quanto ao significado do termo, dando-o, alguns, como ave de pernas cobertas de penas (alusão aos europeus que usavam botas), outros, como forasteiro, estrangeiro, ou até inimigo, inicialmente designativo dos portugueses, cabendo registrar ainda que no Houaiss (2001), se lhe dá etimologia controvertida, talvez do Tupi, epíteto aplicado não a um indivíduo, mas a um grupo, um bando de agressão, referindo ainda como sinônimos e variantes boaba, boaoa, buaoa, emboaoa, embuaba, imbuava.
[6] .  Acesso: 24/10/2011.
[7] ELLIS JR., Alfredo. A Madrugada Paulista Lendas de Piratininga. São Paulo: Editorial Paulista, 1934, p.214.
[8] DONATO, Hernâni, Dicionário das Batalhas Brasileiras. São Paulo: IBRASA, 1996, 2ª ed., p.243.
[9] Neste relato, daqui por diante, nos louvamos em Raimundo de Menezes e suas citas de Julio Ribeiro. MENEZES, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo. São Paulo: Saraiva, 1954, p.73.

Um comentário

  1. Parabenizo o amigo e confrade Agostinho Tavolaro pelo artigo, de expressão clara, informações cuidadosas, e, o que para mim é ainda melhor, capaz de provocar debates e reflexões – comigo, pelo menos. Como meus camaradas campinenses sabem, estou sempre pronta a refletir sobre o tema “mulher”, sobre as circunstâncias históricas em que vivemos. Seria interessante, creio, comparar os tempos, o daquele bandeirantismo , e o nosso – poderia, a mulher de hoje adotar semelhante comportamento, inerente ao tipo de sociedade, família, etc, em que estavam nossas tataravós inseridas? Fica aí a sugestão.

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