A Chacina dos Operários na Greve Geral de 1917 em Campinas

The Slaughter of Workers at the General Strike of 1917 in Campinas, SP, Brazil.

Por Gilberto Gatti – jornalista, economista. Sócio correspondente do IHGG Campinas em Brasília, DF,

Fernando Antonio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira  11 e presidente do IHGG Campinas.

O que não ficou gravado no mármore, perpetua-se na história…
Álvaro Ribeiro

Dois mausoléus do Cemitério da Saudade – Quadra 32, Perpétuas números 40 e 41 – têm notável valor histórico, cultural e social: eles completarão 100 anos no próximo dia 16 de julho de 2017 e referenciam um acontecimento que marcou a sociedade local e que teve repercussão nas principais cidades do país. O presente artigo é a contribuição do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas à essa memória.

Os sepulcros foram projetados e construídos pelo artesão Antônio Coluccini, da Marmoraria Campineira, com recursos angariados pela Comissão de Operários junto aos trabalhadores das indústrias locais, principalmente, nos locais de trabalho dos três operários lá sepultados: a Companhia Mac Hardy Manufatureira e Importadora e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Uma subscrição pública foi realizada, tendo a sucursal do jornal O Estado de S. Paulo funcionado como um dos pontos de arrecadação. A edição de 23 de julho de 1917 registrou a iniciativa:

“Esteve ontem à noite, na sucursal do ‘Estado’ uma comissão de operários que nos comunicou ter sido aberta uma grande subscrição popular, cujo produto se destina a erigir três singelos mausoléus sobre as covas onde repousam os três infelizes operários, mortos no conflito de 16 do corrente mês, na porteira do Capivara…

O livro de Registro Geral de Enterramentos do Cemitério do Fundão (p. 323) aponta, a 14 de setembro de 1917, que a Comissão de Operários comprou as Perpétuas em que estão sepultados Antônio Rodrigues Magotto e Tito Ferreira de Carvalho, ambos falecidos a 16 de julho de 1917, e Pedro Alves, falecido a 18 de julho de 1917. Porém, a sepultura de Pedro foi desfigurada, infelizmente.

Os dois jazigos restantes estão assentados sobre bases retangulares construídas em alvenaria, ocupando toda a área das sepulturas. As carneiras são elevadas e levemente inclinadas para a frente. Não há imagens sacras ou alegorias religiosas. Além do número de identificação, há duas placas que remetem ao fato: uma de iniciativa de Américo Brancaglion, de 16 de julho de 1959, e outra de Fenikso Nigra (Fênix Negra, em esperanto), da Federação Operária de São Paulo, registrando os 90 anos da repressão, em 2007.

As campas que cobrem as sepulturas foram trabalhadas em mármore Carrara. O epitáfio do primeiro, em baixo relevo registra: Eterna Homenagem Operária a Antônio R. Magotto, 23-9-1889 e o fatídico 16-7-1917. O epitáfio do segundo, também em baixo relevo aponta: Eterna Homenagem Operária a Tito de Carvalho, 10-6-1859 e 16-7-1917. Em ambos há uma pira encimada pelo símbolo do fogo do martírio, sustentada por uma base de mármore cinza-andorinha e a inscrição em baixo relevo: Paz. Na face frontal da torre do segundo, há uma estrela com irradiações, representando o homem perfeito. No primeiro, a estrela com irradiações desapareceu. Nos epitáfios de ambos, grosseiramente violentados por golpes de marreta e talhadeira se pode ver, ainda parcialmente: Barbaramente assassinados pela polícia na porteira do Capivara.

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Mausoléus remanescentes com a zeladoria promovida por Gilberto Gatti (2016). Avenida das Quaresmeiras, Quadra 32, túmulos 40 e 41. Cemitério da Saudade.

Trata-se dos primeiros monumentos erguidos no Brasil em homenagem a trabalhadores que perderam suas vidas em lutas reivindicatórias e de solidariedade. Em 1989, na cidade de Volta Redonda (RJ), o Memorial 9 de Novembro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, foi erguido para lembrar os três metalúrgicos mortos pelo Exército Brasileiro na invasão da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), durante movimento grevista.

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A Pira encimada pelo fogo do martírio, a Paz e a Estrela com irradiações (2017).

Em Campinas, os mausoléus do Cemitério da Saudade têm características singulares: foram erigidos por iniciativa popular, pertencem à história social da cidade e são marcos da luta do proletariado local por conquistas trabalhistas e conscientização da exploração a que estavam submetidos, particularmente aos largos horários, ao trabalho da mulher e das crianças e jovens, além dos baixos salários.

Originalmente, o termo mausoléu significa monumento funerário ou tumba de dimensões grandiosas. No presente caso, o termo foi adotado pelos próprios integrantes daquela Comissão de Operários. Nosso respeito. São monumentos de dimensões modestas, mas onde repousam os heróis praticamente anônimos da resistência operária contra a prepotência argentária e policial: Antonio Rodrigues Magotto e Tito Ferreira de Carvalho, operários da Companhia Mac Hardy Manufatureira e Importadora, e Pedro Alves, de apenas 18 anos de idade, operário da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro.

A tragédia ocorreu durante o auge da primeira greve geral de trabalhadores que se espalhou pelas principais cidades do Brasil, em julho de 1917. Em Campinas, a diretoria da Companhia Mac Hardy acedeu com um aumento de 20% nos salários dos trabalhadores, mas nada foi alcançado pelos trabalhadores da maior empresa da cidade, a Companhia Mogiana. Também sem melhorias salariais, trabalhadores de outras empresas, entre elas da Lidgerwood e da Ramasco, juntaram-se aos ferroviários e o volume das reinvindicações aumentou. Nesse contexto, a polícia prendeu o italiano Angelo Soave, um dos líderes do movimento.

Os operários agiram rapidamente e contrataram o advogado Pedro de Magalhães para negociar a libertação com as autoridades, mas estas mantiveram-se resolutas de deportar Angelo Soave para a capital, onde ele seria encarcerado e julgado.

O trem levando o líder anarquista partiria a 16 de julho. Nesse dia, um grupo de dezenas de operários postou-se sobre os trilhos da ferrovia, no local conhecido como a Porteira do Capivara – uma passagem de nível na confluência da avenida João Jorge com rua Visconde do Rio Branco –, para impedir a passagem do comboio. O movimento foi violentamente reprimido pela polícia: Antonio, Tito e Pedro tombaram mortos e outros 16 operários foram feridos pelos soldados da Força Pública de Campinas, comandados pelo capitão José Dias dos Santos.

 

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O livro Falsa Democracia, do jornalista Álvaro Ribeiro, detalha o evento:

“Sabedores da prisão, como agitador, de um ex-colega, então modesto comerciante, que ia ser remetido para São Paulo, foram à estação ferroviária, pedir a sua soltura ao delegado de polícia.
Desconfiados ou avisados de que o pedido não havia sido atendido, uma grande parte dos manifestantes dirigiu-se à porteira do Capivara, passagem de nível, da cidade à Vila Industrial, afim de impedir a saída do trem que devia transportar o retido.
Esse procedimento desordeiro nenhum mal causaria, porque, sendo a porteira visível da plataforma, o trem não partiria, ou se partisse suspenderia a marcha, por não estar a linha desimpedida. Eram, portanto os grevistas empecilho sem consequência, de fácil remoção, mediante simples intervenção policial…
Eis o que se deu: vindo de São Paulo, parara, ante prévio aviso, na Ponte Preta, a duas centenas de metros aquém da porteira do Capivara, um trem especial, conduzindo duzentas praças de polícia.
Desembarcados, vieram os soldados pela linha que ali faz uma curva, agachados, e sorrateiramente, pé ante pé, como caçadores de feras, fuzis preparados para, de improviso, erguerem-se diante dos inofensivos operários e alvejá-los. (p. 108-09).

O relato do desespero vivido por dezenas de pessoas fugindo em debandada e sem oporem a mínima resistência continua detalhado:

“Pois bem, nem assim escaparam à sanha assassina. Atirados pela soldadesca sedenta de sangue, caíram varados pelas balas dos mercenários da democracia republicana 19 pessoas – 3 mortos e 16 feridos.
Examinadas as vítimas, nenhuma tinha armas e quase todas apresentavam ferimentos pelas costas, ficando comprovada a covardia. (p. 110)

E finaliza:

“… quando os operários pretenderam inaugurar um mausoléu no cemitério, comemorativo da carnificina, executado por subscrição, o governo opôs-se, obrigando a substituição do epitáfio: Barbaramente assassinados pela polícia na porteira do Capivara por considerá-lo ofensivo ao decoro oficial …
O que não ficou gravado no mármore, perpetua-se na história e o governo de então, será sempre rememorado. (p. 111).

Os jornalistas locais, Amilar Alves, do Correio de Campinas, Henrique Vogel, do Commercio de Campinas e Álvaro Ribeiro, do Diário do Povo, enviaram telegrama ao secretário da Justiça e da Segurança Pública do Estado de São Paulo da época, Eloy Chaves, pedindo enérgica punição e recolhimento dos culpados pela selvageria inqualificável, praticada ontem por policias… sem aviso prévio e sem emprego de recursos pacíficos.

A tragédia repercutiu nacionalmente. No Rio de Janeiro, os jornais de maior circulação da capital federal – A Noite, A Razão, O Paiz, Correio da Manhã, Gazeta de Notícias, Jornal do Brazil e Jornal do Commercio – noticiaram o evento nas edições de 17 de julho e subsequentes. Na capital paulista, os dois principais periódicos: Correio Paulistano e O Estado de S. Paulo, por semanas informaram seus leitores a partir de seus correspondentes em Campinas. As versões, habitualmente diferentes, retrataram suas ideologias.

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Homenagens. Observa-se o símbolo anarquista na placa da esquerda (2017).

Neste centenário da trágica repressão (1917-2017), os monumentos maltratados do Cemitério da Saudade não simbolizam apenas a inexorável ação do tempo sobre a matéria, como também o olvidar de memórias de luta por uma sociedade mais democrática e justa. A literatura histórica recente pouco cita essa tragédia e seu desenrolar no contexto da Greve Geral de 1917, no Brasil.

Campinas, de significativa história econômica, política e cultural, e que se tornou a metrópole sede de uma das mais importantes regiões econômicas desse país, deve se manifestar. Assim como fazem os estudiosos das grandes metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro, se deve cultivar e dar conhecimento das nossas memórias de realizações, lutas, heróis, sejam eles simples operários motivados pela consciência da exploração do trabalho e pela solidariedade. Essa também é a função do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Referências
Livros
BATTISTONI FILHO, Duílio. Imprensa e literatura em Campinas nos seus primórdios. Campinas: Pontes Editores, 2016.
COSTA, Caio Túlio. O que é o anarquismo. São Paulo: Brasiliense, 6ª ed., 1982. (Coleção Primeiros Passos, 5).
DULLES, John W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil (1900-1935). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2ª ed., 1977.
NOGUEIRA, Bráulio Mendes. As lutas sociais em Campinas. São Paulo: União Paulista de Educação, 1988.
RIBEIRO, Álvaro. Falsa democracia. Rio de Janeiro: F. de Piro Editores, 1927.
Periódicos
A NOITE, Rio de Janeiro, DF.
A RAZÃO, Rio de Janeiro, DF.
COMMERCIO DE CAMPINAS, SP.
CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, DF.
CORREIO DE CAMPINAS, Campinas, SP.
CORREIO PAULISTANO, São Paulo, SP.
DIÁRIO DO POVO, Campinas, SP.
GAZETA DE NOTÍCIAS, Rio de Janeiro, DF.
JORNAL DO BRAZIL, Rio de Janeiro, DF.
JORNAL DO COMMERCIO, Rio de Janeiro, DF.
O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, SP.
O PAIZ, Rio de Janeiro, DF.

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